Vida

Por: Wagner Matias de Andrade
Comunicador social, especialista em pedagogia empresarial

Dedico este texto a minha mãe e professora Julita, minha esposa Clara e minhas filhas Ana, Carolina e Beatriz

Introdução

A Soluções Criativas não é uma grande editora nem um grande estúdio de arte. O que tem de grande é o tempo em que vem firmando a determinação de ser útil e agregar valor. Especialmente, porque é preciso retribuir ao mundo o que aprendi com pessoas e instituições. Essa história é um agradecimento pelo que recebi.

Fundada em 1985, a origem da Soluções Criativas remonta a 1964, quando o sonho de criar uma editora se tornou um forte motivo para eu não me acomodar. O que entendia de editora? Praticamente nada. Apenas que são elas que publicam as revistas de histórias em quadrinhos.

Alfabetização: escola rural

Povoado de Itaipu, município de Araxá (MG), sem eletricidade, brincadeiras à luz da lua e lamparinas


 

Escola rural onde aprendi a ler e fiz primeiros desenhos. À esquerda, a sala de aula. À direita, moradia da professora e família


 

Nasci em 1 de julho de 1953, em Araxá (MG). Até 10 anos de idade, morei e estudei no povoado de Itaipu, onde minha mãe, Julita, era professora rural. Em apenas uma sala de aula, havia alunos de 7 anos a adultos, nos três primeiros anos do primário. Minha mãe alternava as lições entre as turmas. Fora da aula, eu vivia a liberdade no cerrado, mata de eucaliptos, com o que se podia brincar quanto se tem o mundo em sua naturalidade. Quando chovia, desenhava com giz no piso da parte central da construção. Era desenhar e apagar.

Meu pai, Otaviano, trabalhava como ferreiro na cidade. Chegava nos finais de semana, trazendo, em grandes sacos brancos, brinquedos simples, pequenos pedaços de madeira, que a gente empilhava como hoje as crianças fazem com peças de plástico. Certa vez, trouxe duas revistas em quadrinhos, Pato Donald e Paladino do Oeste. Foi uma revolução cultural. Meus irmãos e eu aprendemos que é possível contar histórias com quadrinhos. E começamos a criá-las.

A história em quadrinho se tornou, para mim, mais do que objetivo de lazer. A capacidade de desenhá-las facilitou minha inclusão no mundo urbano, muito complexo para um menino da roça, um menino bobo e tímido. Mas que sabia criar e desenhar histórias.

Cinema de brinquedo

Nosso pai nos levou para conhecer o cinema na cidade quando eu tinha nove anos de idade e ainda morava na área rural, onde não havia energia elétrica. Como aconteceu com os quadrinhos, inventamos mais um brinquedo a partir da novidade. Vez ou outra, quando passava alguma caminhonete à noite perto da escola, aproveitávamos a luz na parede para criar nosso cinema, pulando frente. Lembro-me bem que ver nossa sombra se mexendo na parede nos dava mais emoção do que parecem se emocionar as crianças que gravam e assistem filmes em seus celulares.

Já morando na cidade para continuar os estudos, criamos, em um cômodo que meu pais construía, um cineminha de brinquedo. Como projetor fizemos uma caixa de madeira. A lente para foco na parede era uma lâmpada cheia de água. O filme, um rolo de papel vegetal em que desenhávamos a aventura. As crianças pagavam com revistas em quadrinhos para assistir. No quarto escuro eu superava a timidez para imitar os ruídos, a voz dos personagens.

Primeiros quadrinhos, aos 11 anos de idade


Cinema. Brincadeira de criança.


A partir da 6ª série fiz um jornal para a sala de aula, O Tagarela. Como ainda não existiam as copiadoras, era apenas um exemplar que circulava de mão e mão. Todo escrito à mão, com letra de forma, com colunas, imitando os jornais impressos, era um exercício para criatividade. As matérias eram notícias de brincadeiras, inventadas a partir de pequenos fatos ocorridos na sala. Por exemplo, no final da aula quando todos faziam silência para copiar depressa o dever de casa, Walter espirrou. No dia seguinte, a mancheta de O Tagarela era "Walter salvou o planeta terra". Os marcianos pretendiam montar uma fábrica de um gás venenoso na Terra, escondida em uma caverna, para matar toda a população e dominar o planeta. Como o disco voador deles era muito pequeno, entraram no nariz do Walter pensando que era uma caverna. Quando começaram a bater estacas, Walter espirrou e os jogou longe. Desistiram, dizendo que o planeta é bonito, mas tem vulcões perigosos e melequentos.

O Tagarela - escrito à mão em colunas O Raio Estudantil - datilografado e mimeografado

A partir de 11 anos de idade, estudei à noite, trabalhei durante o dia na ferraria do meu pai e, nos intervalos, criava minhas historias. Criava histórias quando trabalhava na roça, plantando e campinando. Criava história trabalhando em bar, enquanto lavava copos. Anos depois, soube que desafiar o cérebro é um bom modo de estimular a inteligência e a criatividade. Aquela brincadeira de criança contribuiu para os recursos que tenho hoje.

Ferraria de meu pai, com Eduardo (à direita)


 

Primeiros desenhos - sonho: criar uma editora


 

Primeiro livro

Aos 15 anos, escrevi, em letra de forma, um livro de 180 páginas. Minha professora de português sugeriu que escrevesse à máquina. Entrei para a escola de datilografia Remington, do professor Ivan, comprei em prestações a minha primeira máquina de escrever, do meu tio Mozart. Este meu tio comprou uma escola de datilografia, onde virei professor aos 17 anos. Lá, com colegas do Ginário, criamos um jornal mimeografado, que me levou a ser colaborador do Correio de Araxá, o jornal da cidade. Depois, trabalhei em escritório de advocacia do Fábio e no banco Comércio Indústria de São Paulo.

Comunicação (jornalismo e publicidade)

Em Belo Horizonte (MG), fui empregado em empresa de transporte Telebrasília, do araxaense Pompílio, em agência de turismo, na Editora Vigília, do Leo e do Noraldino. Na editora, finalmente conheci os processos de edição e comercialização de livros. Ali tive meu primeiro contato com a informática em 1975, quando organizei o banco de dados de cadastro de escolas e professores, experiência que me ajudou a criar o banco de dados da Soluções Criativas. Em 1978, trabalhei na empresa Circuito Audimage, do Paulo Emílio e Beatriz, desenhando para slides de um projeto do governo para convencer grandes empresas de que precisavam comprar seus primeiros computadores.

Cursando comunicação social, com habilitação em jornalismo e publicidade, publiquei no jornal Estado de Minas mais de mil tiras em quadrinhos sobre vários temas e, na TV Minas (atual Rede Minas), fiz desenhos animados para jornalismo. As empresas me conheceram e encomendaram histórias para educação e treinamento de seus empregados. Para atender essa demanda, o desenhista Melado e eu fundamos a Cartum - Comunicação e Arte. Encerrada esta empresa, registrei o estúdio de arte Soluções Criativas em Comunicação.

Na Colônia - Em Villa Rica (atual Ouro Preto) e imediações: descendentes de europeus, africanos e índios. Humor social e político.


 

Pedagogia empresarial

No final dos anos 1980, os clientes do estúdio de arte começaram a implementar os conceitos para a qualidade no estilo japonês, incluindo o 5S. Cabia a nós a criação de publicações leves, de rápida leitura e fácil aprendizado para mostrar ao trabalhador a nova gestão da produção. A Fundação Christiano Ottoni (FCO) foi uma das principais orientadoras dos conceitos no Brasil. Como os professores da FCO eram nossos clientes, as transparências para retroprojetor e a arte do jornal da FCO eram produzidas na Soluções Criativas. Aprendendo sobre qualidade e 5S pelo convívio direto com os mestres do assunto, como os professores João Martins, Rosane Crespo Costa e Vicente Falconi.

Algumas cartihas sobre 5S produzidas sob encomenda de clientes


 

Enquanto isso, como voluntário em ações comunitárias e editando o jornal de bairro, Viver no Cachoeirinha, fiz releitura da qualidade considerando as necessidades das pessoas de qualquer idade, em qualquer lugar. Começaram a aparecer pedidos de escolas e pequenas empresas, o que tornou possível transformar a Soluções Criativas em editora, tendo obras para serem vendidas em qualquer quantidade.

Futuro


Saúde


Educação
Famílias
História
Cidadania

Razão de ser

Meus amigos de infância tomaram seus rumos. Quase 40 anos depois, encontrei-me com um deles, que não via desde que ele tinha sete anos de idade. Quando ele soube que tenho uma editora e desenho histórias em quadrinhos, exclamou: "Então você realizou seu sonho!" Percebi que comentar os sonhos é assumir responsabilidade de dedicação e realizá-los. Os amigos torcem por nós. Ter o que lhes contar, décadas depois, é um bom motivador.

Realizei meu sonho de criança de criar uma editora. E mais, com missão, visão e crença de acordo com princípios e valores consolidados durante longa observação do mundo e do jeito de ser e agir do ser humano. Uma editora e histórias a mais só têm sentido se efetivamente agregarem valor para quem decide pela leitura, para quem paga pelas publicações, para quem lê e para o mundo onde atuam estas pessoas.

Os sonhos são importantes para tirar as pessoas do comodismo. Mesmo que se mude de idéia quanto ao sonho, ele já foi útil, ao promover o crescimento que viabiliza a ralização de outros sonhos. Por exemplo, sou editor (programação, desenhos e textos) do site 5s.com.br e vários outros conteúdos pela internet.

Em 2003, fui agraciado com o título "Monstro Sagrado de Araxá", pelo jornal da minha cidade. Considero a homenagem como um desafio para que faça mais para merecer o título.

Romance

O livro "O Resgate da Existência", que publiquei em 2010, conta a história de três cinquentões que avaliam o que foram para definir o que serão. Ao escrevê-lo, percebi que, acompanhando os personagens em suas caminhadas urbanas, eu estava também resgatando outros sonhos ainda não realizados, a minha razão de existir.

 

 

Produtos para 5S


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